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MIGRE: estudantes internacionais chegam à formatura

  • Published: Monday, 07 September 2026 09:50
  • Last Updated: Thursday, 08 October 2026 10:23

Quando chegou ao Brasil, em dezembro de 2019, Mahougnon Aicha Takolodjou, 29 anos, carregava o desejo de retomar os estudos e conquistar um diploma. Beninense, ela havia interrompido a formação no país de origem e enfrentava, além da adaptação a uma nova vida, o desafio de aprender português. Pouco tempo depois, encontrou no Processo Seletivo Especial para imigrantes, refugiados, exilados, apátridas e vítimas de tráfico de pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica, o caminho para ingressar na Universidade Federal do Pará (UFPA).

Mahougnon Aicha Takolodjo, graduada em Enfermagem


Cinco anos depois, Aicha conclui a graduação em Enfermagem. A formatura marca também a conclusão de uma trajetória iniciada durante um dos períodos mais difíceis para a educação em todo o mundo: a pandemia de Covid-19.


O processo seletivo, conhecido como MIGRE, foi construído a partir de uma demanda que já existia na Universidade. Segundo a professora Isabel Cabral, da DIVERSE, a proposta começou a ser discutida quando ela ainda atuava na antiga estrutura responsável pela pauta e contou com articulação junto a técnicos da Organização das Nações Unidas (ONU) e ao Ministério das Relações Exteriores.

A resolução que criou o processo foi aprovada em 2019, e a primeira seleção ocorreu em 2020. Por causa da pandemia, porém, os estudantes selecionados ingressaram efetivamente na Universidade em 2021.


A iniciativa considerou uma realidade particular de Belém, que integra uma rota de chegada de imigrantes e refugiados e abriga, entre outras instituições, representação da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). A proposta também dialogava com situações vivenciadas por estudantes estrangeiros que buscavam continuar a formação superior no Brasil.


Na primeira edição, mais de 300 pessoas chegaram a se inscrever, mas a análise da documentação e dos critérios do edital restringiu o grupo aos candidatos que efetivamente se enquadravam no público do processo. Entre os países de origem identificados estavam Haiti, Venezuela, Colômbia, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Benin, Angola e Gana.


A seleção ofereceu vagas em diferentes áreas de formação. Entre os cursos escolhidos estavam licenciaturas, História, Medicina, Enfermagem, Odontologia, Farmácia e Engenharia da Computação.


Um começo em meio à pandemia


A trajetória dos primeiros estudantes do MIGRE foi atravessada por dificuldades que iam muito além do ingresso na Universidade. A primeira turma começou a formação em um contexto de ensino remoto, quando a própria permanência nas atividades acadêmicas dependia, em muitos casos, do acesso a equipamentos e internet.


A UFPA buscou oferecer condições para que os estudantes acompanhassem as atividades. Foram disponibilizados cursos de língua portuguesa, chips de celular e, em alguns casos, tablets. Para Isabel Cabral, o balanço da experiência é positivo, embora a primeira turma também tenha enfrentado desistências.


Alguns estudantes estavam em outras cidades quando iniciaram a graduação e encontraram dificuldades para se deslocar para Belém quando as atividades presenciais foram retomadas. Outros precisaram retornar aos países de origem.


Para quem permaneceu, a adaptação acadêmica caminhou junto com a aprendizagem de uma nova língua. Foi o caso de Aicha. Quando começou sua trajetória na UFPA, ela ainda tinha dificuldade para se comunicar em português. Antes do início da graduação, participou de um curso de quatro meses oferecido pela Universidade. “A gente se dedicou a aprender”, relembra.


O aprendizado não aconteceu somente em sala de aula. Durante a pandemia, Aicha conta que buscava contato com a língua portuguesa por meio de vídeos, músicas e das relações que foi construindo em Belém. O trabalho com tranças africanas também ajudou a ampliar o contato com outras pessoas.


A experiência com o idioma continuou durante a graduação. Apresentações, atividades acadêmicas e a convivência com professores exigiram que ela enfrentasse, aos poucos, o receio de não conseguir acompanhar o curso. Ao olhar para trás, ela identifica justamente essa superação como uma das maiores conquistas da trajetória. “Para mim foi o maior sucesso. Eu consegui vencer o português”, celebra.


Entre universidade, família e trabalho


A formação em Enfermagem também foi construída em meio a responsabilidades familiares. Durante o último semestre, enquanto cumpria atividades de internato, Aicha precisou conciliar a rotina acadêmica com os cuidados com a filha pequena. A estudante conta que chegou a considerar interromper a graduação diante das dificuldades, mas decidiu seguir com as duas responsabilidades.
Agora formada, pretende continuar se qualificando. A estudante tem interesse pelas áreas de obstetrícia e pediatria e gostaria de fazer residência.


Dois estudantes, uma amizade construída em território novo


Entre os estudantes que chegaram à UFPA por meio do processo estão Abdulai Sadat, 31 anos, de Gana, formado em Farmácia, e Prince Nyarko, 30 anos, também ganês, que concluiu Engenharia da Computação.


Abdulai chegou primeiro e acabou se tornando uma referência para Prince na adaptação a Belém. A amizade construída entre os dois ultrapassou a rotina acadêmica. Juntos, enfrentaram os desafios de estudar em outro país, compreender uma nova língua e construir uma vida longe de casa.

Abdulai Sadat, graduado em Farmácia


O aprendizado do português foi uma das bases dessa adaptação. Assim como outros estudantes internacionais da turma, eles tiveram acesso às atividades de língua portuguesa oferecidas pela Universidade, consideradas fundamentais para acompanhar as disciplinas da graduação e estabelecer relações no cotidiano acadêmico.


A experiência também trouxe descobertas que não estavam nos planos iniciais. Abdulai chegou ao Brasil com o sonho de jogar futebol. Trazia como referência experiências de países em que universidades mantêm programas esportivos associados à formação acadêmica. Ao descobrir que a estrutura universitária brasileira funcionava de outra maneira, precisou rever a expectativa que havia construído antes da chegada. O que permaneceu foi o projeto de formação.


Prince, por sua vez, conseguiu concluir a graduação em Engenharia da Computação antes do tempo normalmente previsto para o curso e já direciona os próximos passos para a área de inteligência artificial.

 

Prince Nyarko, graduado em Engenharia da Computação


A amizade entre os dois também pode se transformar em projeto. A ideia é aproximar os conhecimentos adquiridos nas duas áreas - Farmácia e Computação - em uma iniciativa conjunta que também incorpore a experiência de terem estudado em uma universidade localizada na Amazônia.


Uma oportunidade que abre outros caminhos


A história desses estudantes ajuda a revelar uma dimensão do MIGRE que vai além do ingresso na graduação. Para muitos deles, a seleção representou a possibilidade de reconstruir uma trajetória educacional interrompida pela migração, por conflitos, dificuldades sociais ou circunstâncias pessoais.


A primeira edição também mostrou que oferecer acesso é apenas uma parte do processo. O acompanhamento acadêmico, o aprendizado da língua e as condições materiais para acompanhar as atividades foram elementos importantes para que os estudantes pudessem avançar.


Para Isabel Cabral, a experiência da primeira turma também contribuiu para aperfeiçoar o processo. Na edição atual, uma das principais mudanças é que todos os candidatos com inscrição homologada serão entrevistados, e não somente aqueles selecionados em situações de maior demanda ou quando surgirem dúvidas sobre a documentação.


A iniciativa segue, assim, abrindo espaço para que pessoas de diferentes trajetórias encontrem na Universidade um novo ponto de partida. Para Aicha, que agora deixa a condição de estudante de graduação para assumir o título de enfermeira, a conquista tem um significado que ultrapassa o diploma. “Eu agradeço muito a UFPA por ter lançado esse processo e dado oportunidade para a gente”, comemora.

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