Baobá de Zélia: árvore preserva memória e ancestralidade na UFPA

Uma árvore para guardar uma história. Foi com esse sentido que um baobá foi plantado, na terça-feira (18), no Campus Guamá da Universidade Federal do Pará (UFPA), em homenagem à professora emérita Zélia Amador de Deus. A iniciativa integra a Rota dos Baobás, projeto da Rede Mocambos que busca disseminar a árvore em diferentes territórios brasileiros e associá-la a pessoas cujas trajetórias tenham importância para suas comunidades.
O baobá plantado no Campus Guamá passa a ser identificado como Baobá de Zélia, tornando-se um marco de memória dentro da universidade. A cerimônia reuniu familiares, estudantes, servidores, integrantes do movimento negro e representantes da comunidade universitária.
Para Heitor Guimarães, advogado e integrante da Rede Mocambos, a árvore representa uma trajetória que atravessa territórios e gerações. Ele conta que as sementes chegaram até ele pelas mãos de um jovem angolano que conheceu no interior de São Paulo, estabelecendo uma conexão entre Angola, a diáspora africana e a Amazônia.
Ele resgatou o histórico do terreno, que já foi patrimônio dos Mercedários, para onde eram enviadas pessoas escravizadas com hanseníase. “A área hoje não só é um polo de produção de conhecimento, como também é a casa de inúmeros estudantes negros, quilombolas, indígenas, a ponto de que nós termos atualmente um reitor negro. E tudo isso se deve ao trabalho de inúmeras pessoas que constroem o movimento negro no Estado do Pará, na Amazônia, dentre elas, a professora Zélia”, celebrou.
A semente que deu origem à árvore plantada na UFPA foi a primeira a germinar entre as que Heitor recebeu. A escolha de destiná-la à homenagem de Zélia, segundo ele, está relacionada justamente à capacidade simbólica do baobá de preservar histórias.
Associado à longevidade, à ancestralidade e à transmissão de conhecimentos, o baobá ocupa lugar importante em diferentes culturas africanas. Na perspectiva apresentada durante a cerimônia, a árvore funciona como uma espécie de guardiã da memória: permanece no território enquanto novas gerações chegam, crescem e seguem seus caminhos.
Referência
A homenagem ganha uma dimensão ainda maior quando relacionada à trajetória de Zélia Amador de Deus. Professora, pesquisadora, artista e ativista, ela construiu grande parte de sua trajetória acadêmica e política na UFPA e se tornou uma das principais referências do movimento negro na Amazônia. Sua atuação esteve ligada ao enfrentamento ao racismo, à defesa das ações afirmativas e à ampliação do acesso de grupos historicamente excluídos do ensino superior.
Durante a cerimônia, o reitor da UFPA, Gilmar Pereira, destacou a participação de Zélia nas transformações da universidade e sua capacidade de mobilizar diferentes pessoas em torno da luta por uma instituição mais plural. Ele destaca que ela “fez uma revolução. Uma revolução que envolveu pretos, pardos, indígenas, brancos, aqui dentro da universidade. Então, homenagear a Zélia é sempre importante”, avalia.
Memória que permanece
A professora Sandra Lurine, mãe de Heitor, também participou da construção da homenagem. Para ela, o baobá é uma forma de eternizar a memória de Zélia na universidade e reconhecer sua importância para pessoas negras e outros grupos que conquistaram espaço no ensino superior a partir das lutas por políticas de ações afirmativas.
“O baobá é uma maneira de eternizar a memória da professora Zélia na universidade, na Amazônia e, por que não dizer, no Brasil? É uma homenagem singela, mas para que se eternize aqui. Porque como ele é uma árvore milenar. Ele vai estar aqui por dezenas, centenas de anos e alguém vai sempre saber que aqui passou, que aqui atuou Zélia Amador de Deus”, ressaltou.
Para a própria homenageada, o momento representou uma celebração da ancestralidade e da presença negra na universidade. “É um momento de celebração. Celebração da ancestralidade. Celebração de outros mundos. Celebração daquele mundo que a gente sonha com ele, mas que ele é possível. A gente pode construir esse mundo e é o que a gente está fazendo. O baobá, ele encerra os nossos desejos de um mundo melhor”, reflete.
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